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Não há negociações em progresso com a Microsoft

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Em seu blog pessoal Mark Shuttleworth responde, de forma elouquente e direta, os rumores sobre o Ubuntu ser ‘a bola da vez’ na atual rodada de acordos com a Microsoft.

A suspeita circulou essa semana principalmente após o anúncio do novo pacto com a Linspire.

Leiam sobre o assunto nas palavras do próprio BDFL do Ubuntu (em minha tradução livre):

“Está circulando o rumor de que Ubuntu estaria em discussões com a Microsoft sobre um acordo na linha daqueles anunciados recentemente pela Linspire, Xandros, Novell etc. Infelizmente, algumas especulações na mídia (apesar de exaustiva e elegantemente desqualificadas na blogosfera, não antes do causar um certo estrago) apontam que o “Ubuntu deve ser o próximo”.

Para registro, deixe-me declarar minha posição, que eu acho que de uma forma geral também é a posição da Canonical e do Ubuntu Community Council, apesar de ainda não ter abordado especificamente esse assunto com o CC.

Nos recusamos a discutir qualquer acordo com a Microsoft sob ameaça de patentes não especificadas.

Alegações sobre “infringir patentes não especificadas” não tem qualquer valor. Não acreditamos que eles tenham qualquer justificativa legal e por isso não há qualquer incentivo nem mesmo para trabalharmos em conjunto com a Microsoft em coisas maravilhosas que poderíamos fazer juntos. O compromisso da Microsoft de não processar por infração de patentes não especificadas não tem qualquer valor e por isso não vale qualquer pagamento. Ele não protege realmente usuários contra o risco de processos envolvendo patentes por um [1]pure-IP-holder (a Microsoft mesmo é regularmente acionada por violar tais patentes e regularmente também faz acordos). Pessoas que concordam em pagar por proteção baseadas apenas em promessas certamente estarão vivendo uma falsa sensação de segurança.

Eu felicito a Microsoft por seu declarado compromisso com a interoperabilidade entre Linux e o mundo Windows – e acredito que o Ubuntu se beneficiará completamente de qualquer investimento feito com esse intuito pela Microsoft e seus parceiros, uma vez que o código sem qualquer sombra de dúvida será software livre e também certamente será integrado ao Ubuntu.

Em relação a padrões abertos para formatos de documentos, não tenho confiança de que a especificação OpenXML da Microsoft seja capaz de criar um mercado vibrante, competitivo e saudável de múltiplas implementações. Não acredito que a especificação seja boa o suficiente, ou que a Microsoft será capaz de respeitar o suficiente a especificação quando não for de seu interesse. Há somente uma implementação da especificação, e até onde sei, a Microsoft sequer certificou que seu Office12 implementa completamente o OpenXML, ou que o OpenXML define completamente o comportamento do Office12. A especificação do Open Documento Format (ODF) é muito superior, mais limpa e uma especificação largamente implementada que inclusive já é um padrão global. Eu gostaria de convidar a Microsoft a participar do grupo de trabalho Open Documento Format do OASIS, para garantir que os filtros existentes de importação e exportação, de Office12 para Open Documento Format, sejam aprimorados e estejam disponíveis como opção padrão. Acredito que a Microsoft já é membro do OASIS. Essa seria uma abordagem favorável a padrões abertos muito mais construtiva que o OpenXML, que não passa de uma codificação vaga das práticas atuais de um único fornecedor.

No passado surpreendemos as pessoas com anúncios de colaboração com empresas como a Sun, que em certos momentos havia assumido uma postura hostil em relação ao software livre. Eu realmente acredito que empresas podem mudar de postura, quando ocorrem mudanças de comando e gerenciamento. E devemos nos alinhar com empresas que estão comprometidas com o valores que nos são caros, e deixarmos de nos alinhar com elas se esses valores mudarem novamente. Mesmo que a Sun ainda precise cumprir seus compromissos com o software livre em relação ao Java, eu acredito que estes compromissos ainda continuam com a mais alta prioridade.

Eu não tenho qualquer objeção em trabalhar com a Microsoft de maneiras que elevem a causa do software livre e não colocarei condicionantes para essa colaboração, desde que eles adotem uma postura de engajamento e realmente construtiva para a comunidade do software livre. Não há vantagens em rotular qualquer empresa como “intrinsecamente mal o tempo todo”. Mas eu também não acredito que a atual rodada de acordos com a Microsoft seja favorável ao software livre e para ser franco, eu também não acredito que existam boas intenções por parte da Microsoft. Com o passar do tempo porém acho que eles passarão a enxergar isso também.

Meu objetivo é levar o software livre tão longe quanto me for possível, então ajudar que outros assumam a batuta para que sigam adiante. Na Canonical acreditamos que obteremos sucesso e que também daremos uma enorme contribuição para essa causa. Na comunidade Ubuntu acreditamos que a liberdade é a verdadeira força por trás do software livre, não o código fonte aberto. Nosso papel não é de ideólogos encarregados pelo movimento, nosso papel é de proporcionar os benefícios da liberdade para o maior número possível de pessoas. Nós reconhecemos o valor do “bom agora para ficar perfeito depois” (hoje demandamos aplicações livres, amanhã drivers livres também, e algum dia firmwares livres como exigência para fazer parte da configuração padrão do Ubuntu), nós agiremos em conformidade com os objetivos da comunidade do software livre, que apoiamos. Esses acordos anunciados recentemente me soam como “trocar nada, por coisa alguma”. Muito obrigado, mas eu estou fora.”

Fonte: No negotiations with Microsoft in progress – Mark Shuttleworth

Written by @antoniofonseca

sábado, 16 junho, 2007 às 3:04 pm

Publicado em Info, Microsoft, Patentes, Ubuntu

10 Respostas

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  1. Parabens pela tradução e pela iniciativa de publica-la.

    MaxRaven

    domingo, 17 junho, 2007 at 5:55 am

  2. Como dizem: “direto na lata”!
    Ser cínico não é pra todo mundo! Principalmente quando é explícito o que todos pensam a respeito de determinados assuntos. É o caso da MS e as empresas com as quais já acordou; elas sabem exatamente as intenções de cada uma, e sabem também que toda a comunidade vêem claramente essas intenções. No entanto, preferem o cinismo e pousam de bem-aventuradas!
    Já o Shuttleworth… esse sim, é profissional! Agradecemos toda a sua contribuição ao SL, mas sabemos que não vem as ser todo esse bom-samaritano que aparenta! Seus investimentos no SL têm tido muito mais retorno do que sua pretensa contribuição!
    Mas acredito na sinceridade da maioria de suas palavras. Mas sabem como são as empresas: assim como não há empresas “intrinsecamente mal o tempo todo”, também é impossível encontrarmos empresas que vá contra seus interesses lucrativos! Se os objetivos primeiros fossem outros não seriam empresas.
    Um abraço a todos!

    Manoel Aleksandre

    domingo, 17 junho, 2007 at 10:25 am

  3. Parabéns novamente pela tradução e também pela iniciativa.

    saudações,

    Siriaco

    Marcos Siríaco Martins

    domingo, 17 junho, 2007 at 7:20 pm

  4. […] Não há negociações em progresso com a Microsoft Em seu blog pessoal Mark Shuttleworth responde, de forma elouquente e direta, os rumores sobre o Ubuntu ser ‘a […] […]

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    domingo, 17 junho, 2007 at 9:01 pm

  5. tradução perfeita, valeu pelo trabalho, abraço.

    Niu

    segunda-feira, 18 junho, 2007 at 8:27 am

  6. Em que aspecto você considera ODF “mais limpa e superior” ? não achei legal sua postura muito parcial sob os formatos, observo apenas um nível de detalhamento muito menor no ODF que os textos do OXML, com preocupação em manter o legado de trilhões de documentos existentes no globo, uma série de funcionalidades legadas do pacote ofice da microsoft que foram incorporadas no formato. O OXML não foi feito para ser um padrão definitivo, até o pessoal da microsoft defende isso, mas o ODF também não atende ao Office da MS. Sem nenhum compromisso com legados, é fácil defender que ODF é “superior”.

    Esse convite para a Microsoft ingressar no ODF é outra coisa extremamente purista, é pedir para a Microsoft baixar a cabeça para a IBM, Sun e cia e jogar no lixo um documento extremamente detalhado de 6000 páginas e algumas centenas de milhões de dólares investidos, sem contar a estrutura do próprio Office 12…, além de deixar aqueles milhões de usuários de seus legados a mercê, e ser extremamente criticada por isso, inclusive pela comunidade Open Source.

    Olavo

    segunda-feira, 25 junho, 2007 at 3:11 pm

  7. Olavo,

    Esse post é uma tradução do depoimento do Mark Shuttleworth, portanto não representa exatamente a minha opinião sobre nenhum dos assuntos por ele abordados.

    Dito isso, deixe-me expressar o meu ponto de vista sobre as críticas feitas por você:

    Sou obrigado a concordar que o ODF representa um padrão de formato de documentos mais coerente e mais simples de implementar que o OOXML (esse é o nome correto do padrão da Microsoft). Suspeito inclusive que nunca veremos uma implementação completa do OOXML em qualquer produto que não seja da própria Microsoft.

    Acho também que logo a Microsoft fará tantas modificações no padrão original que será inviável manter a compatibilidade entre implementações de versões diferentes. Depõe contra a Microsoft o histórico da evolução de seus produtos, em especial do Microsoft Office.

    Acredito também que o depoimento mais eloqüente contra a adoção do OOXML seja a dificuldade enfrentada pela Microsoft em adotar o seu próprio padrão e implementá-lo completamente nas versões atual e em desenvolvimento do Microsoft Office, respectivamente para Windows e para Mac OS. Aqui estaria um forte indício da inviabilidade de uma adoção completa em múltiplas plataformas.

    Quanto ao convite feito para a participação ativa da Microsoft, através do OASIS, no desenvolvimento do ODF, não vejo qualquer purismo nisso. Se a Microsoft está realmente preocupada com interoperabilidade precisa passar a adotar padrões abertos e aprender a colaborar sem restrições com outras empresas.

    Cada vez sensibiliza menos o discurso de que não dá para fazer certas coisas porque não representam o interesse dos acionistas.

    ASF

    segunda-feira, 25 junho, 2007 at 10:37 pm

  8. Ok Antônio, mas acredito que o padrão “simples e limpo” do ODF também deixa uma montanha dúvidas por não expor detalhamentos sob como implementar algumas funcionalidades, e isso também gera problemas de interoperabilidade, e se eu não me engano, li em algum lugar que já ocorreram problemas por interpretações dúbias do padrão em aplicações não-Open Office.

    Por outro lado, nem a microsoft considera o propósito do OXML ser um “padrão definitivo”, ele é apenas uma iniciativa da MS migrar grande parte do padrão binário proprietário da MS para XML pela ECMA 376.

    Sobre dificuldades de adotar padrões, isso eu acho que não vale a pena nem comentar, como você acha que alguem não vai ter dificuldades em ler 3500 páginas para fazer um processador de texto compatível? ou então 2000 para fazer uma sistema de planilhas? e não só isso, mas ele foi feito daquela forma porque ele tem que ser compatível com arquivos de 10 anos atrás escritos num formato proprietário binário. Então é algo completamente normal. É um compromisso que eles fizeram com eles mesmos.

    Já a parte que querer transformar OXML em algo global já nem é uma iniciativa tão forte da equipe técnica, o pessoal do Marketing da MS que tá trabalhando pesado pra isso, se colar, colou, eles querem vender MS Office. Mas também não vejo muita coisa errada nisso, vários segmentos tem mais de um padrão, porque nisso seria diferente?😀

    Olavo

    terça-feira, 26 junho, 2007 at 4:04 pm

  9. Olavo,

    Certas “ausências” são intencionais, outras necessárias e estão ligadas ao ritmo de evolução do padrão. Ou seja, há espaço tanto para diferenciações entre produtos (implementações do padrão), ainda assim é mantida a compatibilidade (padronização de características comuns e fundamentais).

    No caso do OOXML parecem existir pegadinhas embutidas na especificação que inviabilizam sua implementação completa e funcional em outras plataformas diferentes do Windows. Algo semelhante ao que ocorre CLR (.Net) que também está padronizado.
    A despeito disso, seria muito mais interessante adoção de um padrão único e a colaboração da Microsoft em seu desenvolvimento. Como aconteceu com diversas tecnologias que permitiram a evolução da Internet, por exemplo.

    Permita-me sugerir algumas leituras complementares, e relacionadas, que eu acho interessantes:

    QUEM GANHA COM PADRÕES ABERTOS – Blog do Sérgio Amadeu
    http://samadeu.blogspot.com/2007/06/quem-ganha-com-padres-abertos.html

    Software, Open Source, SOA, Innovation, Open Standards, Trends – Blog do Cezar Taurion
    http://www-03.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion?entry=o_que_motiva_o_desenolvedor

    Com dois padrões não há padrão algum – ‘asf@web’
    https://antoniofonseca.wordpress.com/2007/05/19/com-dois-padroes-nao-ha-padrao-algum/

    Implementação “fácil” com OOXML – ‘asf@web’
    https://antoniofonseca.wordpress.com/2007/05/17/implementacao-facil-com-ooxml/

    Microsoft continua tentando deter o avanço do ODF – ‘asf@web’
    https://antoniofonseca.wordpress.com/2007/05/17/microsoft-continua-tantando-deter-o-avanco-do-odf/

    Em relação a essa última referência, tivemos a ótima oportunidade de contar com a presença do Jomar no recente V FPSL, para discutir essa questão, e nos atualizar sobre os encaminhamentos na ABNT.

    Inclusive sobre o esforço de realizar as reuniões sobre padronização em outras regiões, fora do eixo Rio-São Paulo. Infelizmente sem muito sucesso, por causa de problemas de ordem financeira e operacional da instituição.

    Uma pena que você não pode estar presente para contribuir conosco nessa discussão.

    Abraço,

    ASF

    ASF

    quinta-feira, 28 junho, 2007 at 12:34 pm


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