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Tecnologia, Informação e Expressão

Open Source e Software Livre por um mundo melhor

with 2 comments


Ao discutir a notícia “Guru do Open Source advoga por uma mudança ideológica” na lista do Grupo Linux Pai D’égua alguns temas interessantes surgiram e decidi comentá-los.

Dentre outras coisas foi sugerido que o tão aguardado lançamento do console de games PlayStation 3 da Sony – baseado em Linux – poderia contribuir profundamente para uma mudança de percepção do usuário leigo sobre o sistema, sobretudo por ocorrer em um segmento onde ainda não existe muita penetração ou reconhecimento do Linux.

Eu concordo que existe um potencial interessante, mas não acredito em muita transformação de imediato mesmo porque a maioria dos usuários do console estará interessada mesmo e na experiência de imersão proporcionada pelos jogos e não nos recursos do sistema operacional embarcado ou suas possibilidades.

Mas é claro que isso pode mudar com o passar do tempo, especialmente se a Sony obtiver sucesso em seus planos de uso do console para múltiplas finalidades.

Houve também o comentário sobre o desinteresse da Apple em usar Linux em seus famosos iPods, claro por questões óbvias.

E esse comentário é especialmente interessante porque nos permite perceber duas coisas importantes.

A primeira: possivelmente as palavras de Raymond estão sendo mal compreendidas. Digo isso porque acredito que sua preocupação refere-se menos a Apple utilizar Linux para ativar o iPod do que ao dispositivo ser suportado oficialmente na plataforma.

A segunda: o “conformismo” justificado de muitos usuários do Linux que acomodados confortavelmente em seu fantástico mundo de possibilidades, flexibilidade e poder esquecem que a realidade do mercado de software é justamente oposta. Nele imperam a instabilidade, a insegurança e toda sorte de limitações. A cura para isso parece estar em sermos mais ativos disseminadores do open source e do software livre.

Bem, mas vou me deter na primeira questão e deixar a segunda quem sabe para uma outra oportunidade.

O que Eric Raymond chama de difícil compromisso, é a aproximação do open source com do mundo proprietário (software, codecs, drivers, etc). Certamente um paradoxo, mas ele parece acreditar que isso é necessário a evolução do software, certamente desconsiderando alguns cânones do software livre. Uma visão bem ao estilo open source-like de Raymond.
Suponho que ele pensa que essa aproximação poderia ocorrer através de contratos de licenciamento.

Ele pode estar sugerindo que empresas como Novell, Red Hat, Canonical, dentre outras, aproximem-se comercialmente de Apple, PalmOne e de outros fabricantes de dispositvos para firmarem contratos de licenciamento ou coisa que valha, permitindo que seja oferecido suporte formal a estes dispositivos no desktop Linux.

Na prática seria mais ou menos assim: você compra um iPod ou um Palm e junto no CD de instalação do dispositivo vão os softwares (mesmo os proprietários) e drivers para Windows, MacOS e Linux.

É claro que existem enormes desafios a serem superados para que isso ocorra. E antes de alguém diga que estou me esquecendo de que muitas distribuições não são mantidas por empresas, portanto em tese, não haveria viabilidade para tais acordos em larga escala eu gostaria de esclarecer que estou ciente disso e que estamos falando da opinião de Eric Raymond, não da minha.

Mas é exatamente por isso que tal proposta soa tão provocativa e desafiadora.

Quem trabalha com Linux no enterprise sabe que os grandes fabricantes de hardware oferecem seus servidores – já faz um tempo – com suporte oficial ao Linux. Eles informam que modelo A ou B está com seu hardware homologado e possui drivers para apenas duas distros: Suse e Red Hat Enterprise. Certamente isso não ocorre por acaso.

Há vários problemas a serem superados para que essa aproximação ocorra.

O primeiro é de ordem ideológica, mas Raymond não parece dar muita atenção a isso. Em sua fala diz claramente que usuários não técnicos não ligam para “noções de pureza doutrinária” e sou obrigado a concordar com ele sobre tal comportamento da esmagadora maioria das pessoas.

Depois vem os problemas de ordem técnica como a questão da ausência de uma API padrão no Kernel (não necessariamente uma coisa ruim, pra dizer a verdade algo até mesmo planejado e desejável) que dificulta o desenvolvimento de drivers proprietários, novamente mais um motivo positivo para essa ausência.

Há também as diferenças entre as várias distribuições, que segundo a maioria dos fabricantes de dispositivos e computadores é algo que mais dificulta bastante suporte ao sistema para seus produtos.

Por último, mas não menos importante há a pressão, que muitas vezes beira a chantagem, exercida pela Microsoft sobre os fabricantes de hardware para que não forneçam suporte a outros sistemas operacionais. Quem nunca viu no site de um fabricante de computadores a frase “A XXXX recomenda o Windows XP Professional” ou coisa semelhante.

Alguém pensa sinceramente que isso é idéia do fabricante? Eu penso que ele gostaria que seu produto fosse compatível com o maior número possível de “coisas” pois dessa forma logicamente venderia mais.

É, eu sei que para alguns essas idéias podem parecer heréticas mas acho que chegou a hora de uma discussão mais madura sobre elas.

Inclusive acho que a comunidade deve começar a deixar de lado temas como “dá pra fazer isso ou aquilo com Linux”, “o Linux é bom nisso ou naquilo”… simplesmente porque o Linux é bom em tudo!

Dá pra fazer qualquer coisa com Linux!

Assim como dá pra fazer qualquer coisa com Windows, MacOS, etc. A diferença é que quase sempre com Linux dá pra fazer mais e melhor.

Vou encerrar conclamando aqueles que acham que podem contribuir para o desenvolvimento do Linux, do open source e do software livre para que junte-se a nós e que o façam da forma mais concreta e determinada que puderem.

Estou convencido de que toda a indústria só tem a ganhar com isso.

Written by @antoniofonseca

sábado, 19 agosto, 2006 às 4:01 pm

Publicado em DRM, FLOSS, Linux, Opinião

2 Respostas

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  1. Mas esse é o maior problema, Antônio…
    O foco disso tudo não está em mim, nas pessoas que estão querendo mais dos computadores ou dos pequenos desenvolvedores em crescimento…
    Mas sim, das pessoas que apenas sabem “fazer dinheiro”.
    Querendo ou não, dizer que Ubuntu é o mais próximo do que aquilo que um usuário quer, é pouco, perto da grande massa que vêm com o típico: “Êh rapá, usa Xp crackeado, é mais fácil!”
    Prova disso, é o que aconteceu essa semana:
    O namorado da minha mãe recebeu um computador do governo, excelente computador diga-se de passagem, bom processador, bom Hd. No entanto, OS: Live “Boto” baseada em Kurumin…
    Não reconheceu a multifuncional que temos, não reconheceu um pen-drive, e foi extremamente difícil conectar-se a internet, seguindo as operações básicas que foram passadas para ele…
    Resultado? Pediu que meu primo instalasse Xp e que depois instalasse Ubuntu, que ele ía usar só por curiosidade…
    Eu falei tudo aquilo sobre definir uma OS principal para Linux, pra existir um ícone maior, levando em conta o que eu citei, o mercado.
    Mesmo que tenhamos um Kernel Linux a qual todas as distribuições se baseam, não é como ter um CD que vc instala e vê seu hardware funcionando em minutos, sem que seja preciso digitar comando algum, falo isso vendo o lado das pessoas que você também deve estar abituado a encontrar, que são a grande maioria…
    Muitas vezes, a distribuição também é fabulosa, mas as pessoas são avoadas demais para ver que seu processador não é compatível com aquela distro, ou que o Kernel precisa ser recompilado pra funcionar com aquele tipo de Hd em determinada distro.
    O resultado disso é: Existe sim, um…ou melhor, um milhão de ótimos Linux prontos para levar qualquer pessoa a qualquer parte do universo, mas…a pessoa só quer entrar no orkut e gravar músicas em um Cd ou ouvir em seu iPod…
    Se o Linux não atingir em cheio o lado ignorante das pessoas e perder a preferência por parte delas…não será tão diferente do Mac, que está ao alcance apenas de poucas pessoas…
    Se alguém prefere instalar Windows Media Player 10 em seu aparelho de Dvd, à instalar Gstreamer, Xine ou até o Hoary…significa alguma coisa, não?
    Você já me convenceu sobre o Linux faz tempo e sabe disso…mas é um fato:
    É o mundo que temos que convencer…sou meio idealista e inocente, mas…não é essa a direção que as coisas deveriam tomar…
    Nós já agradamos as pessoas que adoram computadores e até mesmo os curiosos, mas agora o alvo é outro…uma hora, eu sei vou ter que contribuir com algo mais além de reclamações indignadas e até meio sem bons argumentos…
    Mas é que sempre que eu leio algo sobre o Linux, eu penso: “Cara, isso é demais…po, meus colegas deviam ler isso também!”
    Mas são pessoas cujos pais conseguem fazer 9000 reais ao mês, e não precisam perder tempo lendo aquilo…podem pagar 2000 reais em licença e 1000 de assistência técnica…
    Sendo que esse dinheiro podia estar sendo usado em pesquisas, acelerando o “sonho Linux”…

    Diego

    domingo, 20 agosto, 2006 at 1:47 pm

  2. Diego,

    Sistemas de código livre ou aberto estão por aí não é de hoje.

    Porém até bem pouco tempo sua adoção era quase sempre motivada por uma necessidade especial de alguma empresa ou pelas predileções de um certo tipo, também especial, de usuário. Não é novidade que esses sistemas tem sido historicamente quase uma unanimidade entre hackers, administradores de sistemas e usuários avançados de computadores.

    Da mesma forma também ainda são pouco conhecidos entre os usuários leigos. Mas esse é um cenário que vem se alterando cada vez mais rapidamente.

    A medida que grandes corporações desenvolvedoras de software vêm abraçando o FOSS, motivadas principalmente por características como segurança, confiabilidade e a capacidade de coexistência com múltiplos ambientes e múltiplas plataformas, acompanhamos um aumento na oferta de sistemas cada vez mais bem acabados, polidos e prontos para o usuário final.

    Acho que você pode ficar tranquilo porque é apenas uma questão de tempo para que seus desejos, e os de muitos outros usuários de diversos níveis de conhecimento, se materializem em alguma distribuição Linux moderna.

    Fique atento!

    ASF

    sábado, 26 agosto, 2006 at 2:35 am


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